"APENAS MAIS DUAS CRÔNICAS SOBRE MINAS" - Victória Monteiro

Publicado originalmente na Revista A Peste


Por Victória Monteiro

 

Algum lugar entre Luminárias e Cruzília, fevereiro de 2021 A Mineira estava estacionada no campo, não muito longe de um abismo que apontava para a continuação do Cerrado e próxima a um monte, que eu carinhosamente apelidei na minha cabeça de Mont Sans-Soucis. Estávamos bem, éramos duas pessoas à procura de silêncio, luz do sol e, com alguma sorte, um céu estrelado. Mas eu e L. não estávamos sozinhos: uma cerca com a porteira aberta nos separava de alguns bois que pastavam por ali, e dois cachorros, depois de terem seguido a gente, concordaram que ali era um bom lugar para um fim de tarde. Estendemos uma canga no chão, tínhamos pão, parmesão e uma garrafa de cachaça que trouxemos do vilarejo em que passamos por último. Brindamos. Passaríamos a noite ali, nós e o silêncio absoluto. Alguns dias antes, o carro tinha quebrado onde, apesar das igrejas, Deus não vigia - existe apenas - e onde o Diabo são vira-latas gentis que te acompanham. Depois de termos esperado todo o feriado de Carnaval - feriado esquisito esse ano, que nem aconteceu exatamente, mas estávamos onde Deus não vigia e não havia filtros de óleo -, continuamos a viagem, tendo por destino Luminárias. A Mineira ainda soltava muita fumaça. Ao chegarmos, as crianças que brincavam na pracinha observaram com curiosidade o fumacê. Fomos até o Serviço Turístico, onde a única pessoa que encontramos foi um homem que explicou: "A maior parte das cachoeiras fica em propriedade privada. Aqui é meio mal sinalizado, não tem muito investimento… só agora nós conseguimos fazer a prefeitura imprimir esses mapas" e apontou para os papéis sobre o balcão. Ainda era cedo, o tempo estava bom e decidimos procurar uma das cachoeiras estampadas no mapa. A Mineira subiu pelas estradas de terra e chegou até mais ou menos onde o mapa indicava; era, com efeito, a entrada de uma fazenda. Porque éramos os únicos turistas na região, a família que morava ali logo nos identificou e correu para oferecer o acesso. Dez reais por pessoa e teríamos o direito de caminhar pelas bordas do rio, saltando entre as pedras debaixo de uma chuva forte que chegaria de repente enquanto os dois cachorros da família nos guiavam. Foi o que fizemos, no desejo apressado de molhar os pés na água. Aliás, nos demos tão bem com os dois cachorros que eles voltaram conosco, acompanhando alegremente a Mineira e o fumacê até o campo dando para o Cerrado, imenso visto dali. Era um aberto, e nele eu e L. nos expusemos ao pôr do sol que o céu novamente limpo permitia ver quando alguém passou de carro chamando pelos cachorros. As cachorras resistiriam ao chamado até um homem se aproximar e carregá-las de volta. Estávamos novamente a sós. Com os bois também já fora de vista, bebíamos da cachaça até que, cerca de uma hora depois - escurecia-, um motor veio abrindo caminho no silêncio, um carro apareceu, e o barulho do motor parou. Um homem que até então não tínhamos visto, usando um chapéu e um cinto largo de couro, desceu do carro e caminhou devagar até nós. Seus gestos eram sutis, mas pediam atenção. "Opa", começou, diminuindo a frequência dos passos, "parece que tá tudo bem por aqui, hã… mas vocês sabem que isso aqui é terra minha?" Apontou com os olhos o que havia ao redor. "Vocês não podem dormir aí. Ou vocês pagam o quarto que eu alugo no meu sítio, ou… vou precisar de alguma coisa em troca.” Contrariados, oferecemos os vinte reais que tínhamos. Ele pegou o dinheiro e nos observou de volta como quem não se satisfaz. Descalça e num vestido branco que decididamente não era o tipo de roupa que eu gostaria de estar usando numa tal situação, ofereci ao homem um gole da cachaça. Ele olhou para a garrafa com algum desprezo: “Vamos ver se presta”, disse, acabando por aceitar. “Só não temos copo”, acrescentei. Ele virou-se e caminhou até o carro com a mesma lentidão soberba de quando chegou. Abriu a porta e tirou um facão que teve o cuidado de exibir em todos os seus ângulos com sutileza semelhante, esvaziou uma garrafa d'água e, com a pontinha do facão, cortou o plástico e improvisou um copo. Aproximou-se de nós com o copo em uma das mãos e o facão na outra. Ergueu o copo improvisado e eu lhe servi um pouco da cachaça. A visão periférica de nenhum dos três ignorava o facão. Brindamos, só não sei a quê.


Ouro Preto, setembro de 2022 É muito bom reencontrar Ouro Preto. Desde a primeira e última vez que vim aqui, em 2017, tudo aconteceu. Depois de quinze horas no ônibus, que atrasou e quebrou no caminho, piso novamente o pátio da Igreja de Nossa Senhora das Mercês e da Misericórdia. Vejo a cidade já de perto com a alegria de reencontrá-la e alguma tristeza, tristeza que vem à cara como um cuspe mesmo face a uma beleza genuína. Tristeza que é como tentar esticar uma porção de pele enrugada diante do espelho. Não, Ouro Preto não me traz saudades precisamente porque sua beleza continua, sua beleza de ter a combinação perfeita de causas para que milagres aconteçam. Mas Ouro Preto e seus redemoinhos…




Chegamos na quinta de manhã. No sábado, gastamos as coxas subindo morros de paralelepípedo, depois afundando os pés no pó vermelho de uma estrada de terra sobre a qual não devia chover há meses e onde não passava ninguém, só passou um cachorro que apareceu do nada, nos deu um susto e foi embora tão rápido quanto chegou. E finalmente caminhando entre as cachoeiras do Parque Municipal das Andorinhas até assentarmos em uma delas, onde passamos boa parte do dia mais vendo a água cair e aproveitando o calor do sol do que outra coisa.


Cigarros e mexericas depois, decidimos ir embora. O melhor seria tentar uma carona, o que não é tão aberrante por ali. Esperamos perto da saída do parque, observando quem seriam os próximos a se aproximarem de um dos carros estacionados ali. Demorou um pouco, e depois do não de um casal cuja moça ficou sem reação face a nosso pedido e cujo cara deu o migué que lhe era de direito, outro casal apareceu. Corri até eles, que já estavam entrando no carro, e eles aceitaram, aparentemente até excitados pela aventura de dar uma carona.


Abri a porta de trás e o sertanejo estalava dos altos falantes. Enquanto a jovem dava partida no carro, o jovem no banco do passageiro se apoiou, virou para trás com uma Skol beats na mão e um ar de engraçadinho por trás dos óculos escuros e disse: “Vocês não vão roubar a gente não, né?”, “Não, pô”, respondi, “é o que a gente falou, viemos a pé e estamos só com o cartão, não dá pra voltar de ônibus”, “Ah bom…”, o cara completou, ainda com o arzinho de engraçado, “porque eu tô com uma quadrada aqui”.


Blefe ou não, a piada fica pior do que já é no Brasil em que vivemos. Demorei mais do que deveria para entender do que ele estava falando e engoli seco. Não sei se a melhor resposta teria sido “Se estava com medo, era só não aceitar levar a gente” ou simplesmente “Bom saber, nós também.”


Eles nos deixaram perto da praça Tiradentes. Tudo sopesado, o trajeto foi tranquilo, cumpridas as formalidades mínimas e todo o pouco e pobre que se pode desejar diante de alguém que diz que "aqui se cumprimenta na bala" e se despede desejando que Deus abençoe.