"Artistas do Povo" - Entrevista: Bellini, Pintor e Democrata, Parte Um

Por Ricardo Figueiredo


Esta é a primeira entrevista da série "Artistas do Povo". Como acreditamos que a Arte possui um papel fundamental no cotidiano da humanidade, principalmente em momentos de crise social, buscaremos aqueles que estão mergulhados no dia-a-dia do povo, captando seu espírito, seja pela imaginação, pelo convívio, trabalho ou por todos ao mesmo tempo.

"consiste em pôr ao alcance da intuição o que existe no espírito do homem, a

verdade que o homem guarda no seu espírito, o que revolve o peito e agita o

espírito humano. Isso é o que compete à arte representar, e fá-lo ela mediante

a aparência, que, como tal, nos é indiferente desde o momento em que sirva

para acordar em nós o sentimento e a consciência de algo de mais elevado.

Assim a arte cultiva o humano no homem, desperta sentimentos

adormecidos, põe-nos em presença dos verdadeiros interesses do espírito."


(HEGEL, 1999, p. 49).



Olá, Bellini, diga pra nós quem tu és, por favor!


Bellini: Primeiro, quero agradecer a oportunidade de me conceder esse espaço e dizer que me sinto

honrado. Tenho um problema pra descrições em primeira pessoa, então serei sucinto: me

chamo Bellini, sou artista e, acima de tudo, um trabalhador, pois o trabalho é o que ocupa a

maior parte dos meus dias.



Bellini, queria começar perguntando como foram seus primeiros encontros - que você se lembra - com a arte.

Bellini: Bom, o bom senso me faria mencionar as influências mais comuns para alguém crescido nos

anos 90, como desenhos animados, gibis, hqs, video-games ou filmes, mas vou considerar que

estes estejam mais próximos do entretenimento na vida das massas. Sendo assim, o contato

com a ‘Arte’ devo à minha mãe. Mulher proletária, porém astuta e inteligente, decidiu estudar

docência em Educação Artística e seria a observação dos trabalhos dela e com alguns de seus

livros os primeiros contatos com as artes plásticas. Duas pinturas que vi nesses livros nunca

saíram da minha memória: uma do Dalí, ‘A Persistência da Memória’, e outra do William Blake,

‘O Ancião dos Dias’.

"O Levante da Terra regado com Sangue"


O conjunto de sua obra parece estar muito relacionado à ideia de heroismo. Suas pinturas sempre são acompanhadas de um texto explicando sua produção. Qual é sua concepção de heroísmo e como você pensa reproduzi-lo através de seus quadros ?


Bellini: É verdade. De uns tempos pra cá, eu acabei diminuindo um pouco as descrições, na linha dos artistas que dizem que apenas a obra deve ser o suficiente na comunicação. Eu acho que tal ideia possui sua justeza, ainda que não seja verdade absoluta. Se tal fosse, não haveria

necessidade de curadoria ou coisa do tipo. Há um sentido pedagógico nas descrições, porém

uma descrição muito literal pode limitar a imaginação do receptor - o que não é uma

preocupação comum hoje na produção cultural, tudo se tornou muito literal e pouco sutil.


Quanto ao Heroísmo, de fato é um conceito caro ao meu trabalho. Remete a ideia

de Heroicidade, bem ilustrada pela imprensa democrática, como o Jornal A Nova Democracia,

no sentido de que os verdadeiros heróis são os homens e mulheres do povo em sua luta pela

libertação. Este talvez seja o aspecto do meu trabalho em que mais me aproximo de um diálogo com esse

núcleo duro da "cultura pop": a enxurrada exaustiva de super-heróis no entretenimento. É

necessário subverter essa linguagem imperialista do herói para algo mais próximo do realismo

social, isto é, da realidade nacional.


Brecht disse que a arte deveria ser uma realidade refletida e ao mesmo tempo mostrar os

problemas essenciais do povo. Ou seja, não só mostrar que Prometeu foi libertado, mas

participar, entender e sentir o seu processo de libertação.

E isso não impede as licenças poéticas ou até mitos construídos em torno deste novo tipo de

heroísmo. Osvaldão, por exemplo, este grande herói do povo brasileiro, eternizou em si, o mito

criado pelos camponeses sobre sua figura no curso de sua presença no Araguaia.

Você costuma falar bastante do movimento modernista. poderia nos explicar um pouco o que é esse “modernismo”, como ele se encaixa em nossa realidade - se é que podemos falar assim ?


Bellini: Este tema é de grande importância dado que esse ano completa o centenário da Semana de

Arte Moderna de 22. Há uma discussão recente sobre o legado deste grande evento e suas

marcas típicas da sociedade burguesa: branca, excludente, condicionada às concessões da

grande burguesia brasileira e do velho Estado, etc. Acho uma discussão válida. No entanto,

não vejo como seria benéfico jogar a água suja fora como o bebê junto. Essa atitude

iconoclasta e, supostamente subversiva, pouco têm de progressista.


Talvez seja anacrônico falar hoje em algum tipo de luta contra a tradição no campo das artes.

No entanto, a nível político isto nem de longe foi superado: os reacionários de todo tipo sempre

utilizam, historicamente, de um apelo estético à tradição. Isso é sintomático. Para nós,

interessa apenas o que a tradição tem de humanista e que edifica o ser humano em direção a

ser-mais; doravante, aquilo que convém à classe trabalhadora em sua luta pela libertação de

suas correntes. Hoje, a indústria cultural se apodera e rejeita a tradição meramente quando lhe

é conveniente no seu processo de ideologização da sociedade.


‘Modernismo’ nesse sentido significa disputar a hegemonia do conceito de moderno e se

colocar a favor de uma modernidade alternativa, de uma ‘nova modernidade’. E ela não é uma

utopia, porque se demonstrou possível na realidade - seu caminho foi trilhado, mas

interrompido pelas forças que querem a manutenção do velho mundo. A ‘modernidade’

capitalista, porém, é mais do mesmo: degenerescência da condição humana e “progressos”

puramente tecnológicos - de uma técnica condicionada à exploração, não ao aprimoramento do

gênero humano.


Nelson Werneck Sodré, esse grande historiador, disse que só é realmente moderno o que é

popular e nacional. Esta é uma definição que pode nos orientar. Os artistas populares se

diferenciam dos burgueses ao olhar pra ideia de modernidade. Para a burguesia, o moderno é

o "novo", o novo puramente formal neste caso. Para nós, o novo é o que visa o novo mundo, o

que não é possível de existir nas atuais condições de vida e de produção.

Um processo que surgiu nos anos 90, como, por exemplo, as reflexões filosóficas a respeito da

rede mundial de computadores, pro campo ideal da arte burguesa talvez já seja ultrapassado,

pra nós ainda é atual. Até mesmo a industrialização, observando a realidade de países

semicoloniais.


Dialeticamente, para criar o novo, não há negação absoluta do passado. É preciso

compreender que as vanguardas do século XX, por mais que tenham agido dentro da lógica da

forma mercadoria da arte e, muitas vezes, na busca puramente de uma ‘verdade subjetiva’,

conscientemente ou não, tornaram acessível o fazer artístico às grandes massas, quando

romperam com as tradições. Isso seria equivalente, grosso modo, às reformas republicanas

democráticas da burguesia, por assim dizer. Se não negamos conquistas históricas como a

república, o direito de organização em sindicatos, etc., por que deixaríamos de negar as

descobertas de linguagem na arte por supostamente serem intrinsecamente burguesas? Para

nós, toda a questão, no fim, é sobre o conteúdo. Se queremos uma arte que eleve a condição

humana ou que a rebaixe, isto é, que a mantenha no seu atual estágio de decadência.

Em suma, o ‘modernismo’ que defendo é esse: dialético, materialista, democrático, popular e

nacional. Usando de todas as formas do passado para criar um conteúdo novo - de nova

democracia. A partir do momento em que nossa classe abriu o caminho para um novo tipo de

modernidade, para uma modernidade alternativa, de nova democracia, se faz necessário

defendê-la a nível estético. Esse modernismo é, então, também um classicismo, um ponto de

partida para o futuro. Devo alertar, no entanto, que não trago esse projeto já pronto, é algo que

deve ser desenvolvido a partir do trabalho obstinado e apaixonado. O faremos a partir da

práxis.


Enfim, essa é uma questão complexa. Quem sabe numa outra oportunidade futura eu possa

discorrer mais sobre o tema.


4- Muitos autores, como Lipovestky, dizem que não vivemos mais na modernidade, mas numa espécie de pós-modernidade ou hipermodernidade. Como você interpreta isso ?


Bellini: Sem dúvidas, o teórico liberal Lipovetsky traz um conceito mais preciso do que o de ‘pós-

modernidade’ - conceito esse que é uma das maiores farsas acadêmicas dos últimos tempos.

‘Hipermodernidade’ talvez descreva melhor o estado de coisas atual e por isso sobreviveu

relativamente ao peso do tempo. Mais preciso, no entanto, é o conceito consolidado de

modernidade capitalista. Vivemos em uma sociedade liberal, em que o sistema do capital

domina boa parte do mundo. A sociedade burguesa sempre esteve sujeita a grandes

mudanças no modo de vida através de seu incentivo ao progresso tecnológico. Porém, suas

contradições ainda são as mesmas e ainda não foram superadas - por exemplo, a contradição

capital x trabalho.


5- Muitas de suas pinturas são retratos de figuras históricas, principalmente sujeitos dos movimentos comunistas ou de libertação nacional. Qual o motivo ?


Bellini: De fato, eu nunca abracei totalmente a iconoclastia como princípio ou imperativo moral. Ela é

útil quando o objetivo é desvelar a ideologia que constrói os mitos da classe dominante e, por

outro lado, pra entender que os líderes do povo foram também humanos, sujeito a falhas como

qualquer um. No entanto, a iconografia possui sua justeza. Uma delas é o evidente poder de

propaganda; para as massas é mais cativante seguir um líder, do que o caráter abstrato (ainda

que concreto) de uma ideia - essa verdade quem descobriu foi Mariátegui. A outra razão é que

seria uma hipocrisia negar a admiração aos indivíduos - os heróis reais - que dedicaram sua

vida à luta, abnegaram de muitos prazeres mundanos em prol de um objetivo - o mais justo que

se pode buscar a nível existencial.


O motivo, em suma, é demonstrar minha admiração e mostrar o caminho correto que foi

trilhado e deve ser seguido, se desejamos um mundo novo.

"Náusea"

Na luta revolucionária, qual o papel que a arte pode desempenhar ?


Bellini: Na luta, a arte desempenha dois papéis fundamentais: o ‘alimento espiritual’ do povo e a organização lógica e racional dos fenômenos sociais, isto é, de esclarecimento do estado de

coisas. Portanto, o sentimental e o racional: aquilo que dialoga com a alma de quem aprecia

uma obra e aquilo que organiza suas ideias e dá um caminho para a mudança da realidade.



Você se considera um comunista ?


Bellini: Não. Sou um democrata que acredita e luta pela libertação da minha classe. Ser comunista é

uma condição que se adquire pelo merecimento e pelo exemplo, não é algo como uma

autodeclaração, como muitos oportunistas pensam. Muitos partidos que se dizem comunistas hoje seguem uma linha reformista e condicionada inteiramente ao processo eleitoral. Sendo assim, sou um artista popular que apoia a libertação de seu povo e entende que os comunistas

são os que empreendem essa luta justa do modo mais sério e dedicado.


A questão da técnica é frequentemente levantada por você. Alguns artistas, como Fernando Pessoa, chegaram a dizer, através de seus personagens, que detestavam a técnica. Trata-se de uma provocação do Poeta português - um protesto contra algum tipo de “técnica capitalista” - ou existem correntes artistas em que a técnica não tem importância ?


Bellini: A técnica é a mediação do humano com a natureza. Na arte, muitas vezes, pode ser um

‘obstáculo’ entre o artista e aquilo que este quer expressar, e isso, principalmente aos

iniciantes, gera uma ‘servidão’ (ainda que momentânea, na maioria dos casos) do artista à

técnica. O artista precisa dominá-la como domina uma fera. Em formas de arte como a pintura,

se comparadas à escrita por exemplo, o aparato técnico necessário à produção dessa arte é,

para muitas pessoas, a própria razão de se deixar de fazer arte. Quando falamos de outras,

como o cinema, essa ‘distância’ é notável também - a sétima arte é própria da era da

reprodução técnica da arte. O ódio à técnica pode significar simplesmente esse sentimento de

angústia da necessidade de uma mediação entre aquilo que se sente e a comunicação com o

outro.


Na era moderna, como disse anteriormente, a técnica assume um paradigma totalmente

diferente na produção artística: a virtuosidade da técnica perde seu trono e dá lugar à

expressão como o mais importante. Ao mesmo tempo, nos dias atuais, a arte é condicionada e

até rebaixada pelos meios técnicos de sua reprodução - sempre por razões econômicas,

resultado da forma-mercadoria na arte.


Porém, não existe algo como ‘técnica capitalista’; o que existe é o lugar da técnica sob o

capitalismo - e essa é uma questão de muita relevância pros artistas populares. Quero dizer,

estes devem saber avaliar quando o sistema burguês age no sentido de afastar o artista e sua

expressão das massas através de questões técnicas.


No entanto, vejo como salutar que o artista, principalmente o artista do povo, não deixe de se

aprimorar tecnicamente. Por um simples motivo: o artista deve cativar primeiro pelo gosto, só

assim chamará pra si as grandes massas, senão será apenas um propagandista - o que

definitivamente não é um demérito, mas, depende sempre aonde se quer chegar. Isso não quer

dizer, porém, uma técnica única para todos, cada um deve desenvolver sua própria técnica: tal

é a essência do olhar moderno para a técnica.

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Continua [...]