Basta acontecer uma vez: Probabilidade, Tempo e a Guerra Nuclear - Richard Dawkings

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Este é um bom momento para repetir que a improbabilidade de evento como o da flutuação nesse tipo de balsa está longe de ser uma razão para duvidar que ele tenha ocorrido. Uma ideia assim causa estranheza. Em geral, no dia a dia, uma grande improbabilidade é uma boa razão para se pensar que algo não acontecerá. O que importa nessa ideia de os macacos - ou roedores ou qualquer outra coisa - terem atravessado de ilha em ilha até o outro continente é que uma coisa assim só precisaria acontecer uma vez, e o tempo disponível para que ela ocorresse e tivesse consequências fundamentais está muito além do que podemos compreender intuitivamente. A chance de um manguezal flutuante transportar uma macaca grávida e atingir terra firme em um dado ano pode ser uma em 10 mil. Isso, à luz da experiência humana, parece praticamente impossível. No entanto, se considerarmos o espaço de dez milhões de anos, torna-se quase inevitável. E, uma vez acontecendo, o resto seria fácil. A afortunada fêmea daria cria, e com o tempo sua afortunada família se tornaria uma dinastia, que por fim se ramificaria dando origem a todas as espécies de macacos do Novo Mundo. Só teria de acontecer uma vez: coisas grandes cresceriam então de começos pequenos. De qualquer modo, a flutuação acidental está longe de ser tão rara como o leitor possa pensar muitas vezes foram vistos animais pequenos flutuando em destroços e nem sempre são animais pequenos. O iguana verde tem normalmente um metro de comprimento e pode chegar a dois metros. Eis uma citação de Ellen J. Censky e outros enviada à revista Nature:


" Em 4 de outubro de 1995 pelo menos 15 indivíduos da espécie Iguana iguana, o iguana-verde apareceram nas praias orientais de Anguilla, no Caribe. Essa espécie não existia antes na ilha. Eles chegaram em uma esteira de troncos de árvores desarraigadas, algumas das quais com mais de 9 m de comprimento e uma vasta massa de raízes. Os pescadores da região disseram que a esteira era extensa e que foi preciso 2 dias para empilhá-la em terra. Disseram ter visto iguanas na praia entrou cursos Inter vistos iguanas na praia e troncos na enseada"

Presume-se que os iguanas estavam alojados em árvores em alguma outra ilha que foram arrancados e jogados no mar por um furacão: o Luís, que assolara o leste do Caribe em 4-5 de dezembro ou Marilyn, uma quinzena depois. Nenhum dos furacões atingiu Anguilla. Censky e seus colegas posteriormente capturaram ou avistaram iguanas-verdes em Anguilla e em uma Ilhota a meio quilômetro da costa. A população ainda sobrevivia em Anguilla em 1998, e incluía no mínimo uma fêmea com atividade reprodutiva. Aliás, os iguanas e os lagartos seus parentes são especialmente bons em colonizar ilhas do mundo todo. Existem iguanas até em Fiji em Tonga, que são muito mais remotas do que qualquer ilha caribenha. Não posso resistir a comentar que essa lógica do "só precisa acontecer uma vez " é de gelar o sangue quando aplicada a contingências mais próximas de nossa terra. O princípio da nuclear deterrence [ dissuasão nuclear ] e a única justificativa remotamente defensável para a posse de armas nucleares é que ninguém ousa atacar primeiro, pois receia uma retaliação fulminante. Qual seria a probalidade de ocorrer um lançamento de míssil equivocado ? De um ditador que enlouquece, de uma pane em um sistema computadorizado, de uma escalada de ameaças que acabe saindo do controle ? Qual a probabilidade de um erro terrível que desencadeia o Armagedom ? Uma em cem, em um dado ano ? Eu seria mais pessimista. Chegamos pavorosamente perto em 1963. O que poderia ocorrer na Caxemira ? Em Israel ? Na Coréia ? Mesmo se a probabilidade em um determinado ano for tão pequena quanto 1%, um século é pouquíssimo tempo, considerando-se a escala do desastre em pauta. Só precisaria acontecer uma vez."

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Dawkings, Richard A grande história da evolução: Na trilha dos nossos ancestrais/ com a colaboração de Yan Wong;

Tradução: Laura Teixeira Motta - São Paulo: Companhia das Letras, 2009