Conversa noturna - Guilherme Silveira

Atualizado: 6 de jun.

Na sala de espera, a luz do pôr do sol iluminava as pálidas revistas deitadas na mesa de centro. As paredes, pálidas também, intimidavam o calor e promoviam o silêncio quase que compulsório, não fosse um pentelho que, guiado pela pouca idade e experiência, passava correndo em volta das cadeiras até, subitamente, sentar-se, dançando uma dança própria. Haveria a possibilidade de os pais, preocupados com a saúde mental da criança, terem procurado o consultório para trazer uma brisa de sanidade à cabeça do garoto, mas o consultório, sem pinturas, sem cores, frio como um necrotério, não tinha espaço para problemas pequenos, e muito menos intimidava o garoto. Era um lugar de adultos. E a única coisa que iluminava e buscava aquecer, se foi.

- Wagner, chegou a sua vez. Pode entrar aqui, por favor.

Com balançadas respeitosas com a cabeça, cumprimentaram-se.

- Do que gostaria de começar falando?

- Do menino da sala de espera. Não vi os pais dele, ele está aqui para ser consultado também?

- Não, este aqui é um consultório de adultos. Aquele menino é filho da secretária; precisou trazê-lo hoje. Mas o que lhe causou tanto interesse no moleque? Ele é muito espoleta, né?!

- Sim, definitivamente. Meus pais não me deixariam fazer isso em um consultório de adultos, falta-lhe um tanto de educação. Mas, é a coisa da vida, a infância é a melhor fase que poderemos viver um dia, ele até ouve música num cenário fúnebre deste, ao menos é feliz (por enquanto).

- Acha meu consultório fúnebre então? O que o fez pensar isso?

- As cores, o frio, a gente de cara fechada de especialista, profissional né...

- Tentamos levar com seriedade as aflições das pessoas. Isso te incomoda?

- Não... Não estou criticando não, talvez faça até sentido enfrentar a morte em vida, quando a vida parece ser mais desejosa daquela que de si própria. Um tipo de psicologia reversa (mas eu não sei discorrer sobre isso, aliás, não sei discorrer sobre muita coisa além daquilo que vejo e sinto ultimamente).

- Você se acha burro então?

- Eu não sei...

O silêncio permaneceu ali por alguns minutos. Na verdade, o que Wagner pensava era se existia, em algum lugar do mundo, uma classificação em níveis de respostas que poderiam ser dadas para este tipo de pergunta. Uma classificação que permitisse os profissionais a dizerem se ele seria, de fato, burro ou não. A questão, então, seria saber a resposta certa. O que tornava ainda mais difícil a busca eram os olhos de Valter. Pareciam que lhe entravam na alma, misturando-se com seus pensamentos, lendo-os, decifrando-os, antecipando qualquer possibilidade de antecipar a possibilidade de existir uma classificação, e, portanto, tornando o esforço próprio inútil, e dando uma vontade de dizer para deixar de sugar sua mente como um parasita, roubando-lhe as ideias, deixando-o burro. É isso...

- Você me deixa burro.

- Como assim? A burrice não vem de dentro?

-Não sei de onde vem, mas você dita o que é a burrice, não eu. Que liberdade existe na escolha de dizer que se é burro ou não? Se você decidir que eu sou, então eu sou para você. Você é o juiz.

- Eu entendo o que diz, mas desta forma se torna tudo um tanto quanto relativo, não?! Engraçado que nas suas descrições, o foco se torna para as ideias que transbordam da realidade. A realidade, é então objetiva? Se atente, tente ser conclusivo, pois faltam poucos minutos.

- É sim. Por exemplo, agora que me avisou do tempo que falta, como posso ser conclusivo? Parece até uma entrevista de emprego. É o que eu falo, o senhor é o juiz...

- Bom, acho que por hoje encerramos. Você está mantendo os medicamentos?

- Sim, sim.

- E sofre menos angústia atualmente?

- Eu consumo os dias.

Wagner não teria muito para dizer sobre as coisas. Gostava de cinismo. Gostava do amor. Gostava dos olhos no encontro despreparado, partindo e partindo, e por isso tocava violão. É engraçado como encontramos algum objeto externo para lidar com o diálogo interno que objetos externos nos incitam. Dependemos deles, pois somos sociáveis. Talvez por isso tivesse problemas em lidar com a solidão. Não sabia se matava a barata, ou a deixava viva.