O conto de um deus falido


As mãos tremendo por baixo de um fino cobertor. Os olhos fechados na intenção de disfarçar alguma atitude sonolenta. O suor que escorria pelos peitos e pelo abdômen, sem o atrito dos pelos. O ouvido atento à sala. Chegou, sei que chegou, posso ouvir os passos; agora é silêncio absoluto, nem um piu!

Os sapatos pretos, calça social, camiseta e paletó adentravam a sala com tanta imponência que se podia sentir a presença do sujeito perfumado há dois andares acima de seus finos cabelos negros. A voz irregular, mas cheia, enchia a sala e unia-se ao belo cheiro de alguma comida quente saída da cozinha. As mãos com veias saltitantes pegavam o paletó pelas costas e já o lançava em torno da cadeira, como que quisesse abraçá-la. E logo vinham as notícias trazendo algum assado, ou sopa, ou então algum prato predileto oriundo do Mediterrâneo. As paredes tremiam; as escadas rangiam; e meu medo vestia finas meias e pretas.

Falsificou sua assinatura. Foi tudo que bastei ouvir. E já imaginava: um dragão vermelho, soltando fumaça pelas narinas e bocas, galopando para alçar um voo rasante e destruidor de tudo que lhe é alheio e lhe faz oposição. Bastou o silêncio e os passos na escada para sentir-me sem cabeça; arrancada por alguma tribo selvagem de algum país onde só mato se via. Silêncio! Ainda não sabe que é fingimento. O chão do quarto estremecia a cada passo mais próximo da porta, imensa e pesada. A cama já era rio de tanto suor; e terremoto devido às pernas já bambas. Os olhos quase que não se fechavam, arregalando-se na esperança de os passos virarem para o lado oposto do corredor. Já deve ter dormido, melhor não incomodar. E a mente pensava naqueles olhos e naquela face. Mas que face! Por que tem que ter aquela cara maldita? Uma cara fechada, bicuda, como a de um orangotango velhaco e inchado. A voz já não era irregular, mas sim um chamado para toda a natureza ouvir. E a batida na porta…

A maçaneta não resistiu e cedeu; nunca poderia estar trancada. Como que com quatro patas atirou o cobertor aos pés da cama com uma fúria já de leão. Os olhos com veias de sangue saltadas olhavam como que para uma bela presa. A voz derrubou ferozmente a ultima barreira do ataque: o fingimento de morto. E num chamado grosso, forte e contínuo (que expunha toda a saúde do bom animal) levantei-me e coloquei-me sentado, indefeso, tentando desviar o olhar do ataque já preparado. Fiz errado, sim; sim, está certo; sei…

Palavras voavam como facas e perfuravam-me a carne, como um grosso dente de algum carnívoro rasgando a carne de algum herbívoro indefeso, este já ciente da derrota e mutilação. Os olhos castigavam tanto quanto a boca. Pareciam-me estarem envoltos em fogo. Era o próprio demônio; meu demônio, que me castigava noite após noite por ser tão igual quanto. Entendo; castiguei-me tantas vezes por ser igual que tantas vezes me conformei; mas sigo a luta. Castigava-me por não ser quem gostaria? Castigava por não ter minha devoção? Deuses desse mundo ardem um caminho árduo para me conquistar, ou então já desistiram e sentaram-se para conversar em alguma esquina. Mas meu Deus dos dez anos era branco e vestia algodão. Meu Deus dos dez anos era mundano, mas nunca me contou. Meu Deus dos dez anos sentava ao meio de uma sala plenamente decorada e falava-me das aquisições do dia. Meu Deus dos dez anos era temido, e nunca o respeitei. Ó Deus dos dez anos, não tens noção de quantas vezes me atirou à terra, sendo que eu sonhava com a lua.

Um soco no armário. Um belo de um soco forte e preciso; não, não, um murro! Um murro alto, largo, em cheio na porta de um armário. Soube depois que aquele murro era para atingir minha face de mau caráter. Um armário me salvou. Penso eu que, caso estivesse num quarto sem os armários que o próprio Deus comprara, talvez não escreveria, talvez não conversaria, talvez não amaria, talvez não negasse tantos deuses em preocupação de negar o principal deles, talvez eu não fumaria um farto cigarro após um fino almoço regado a vinho do porto; talvez eu não fizesse um parto de minha vida aos dezoito anos de idade; talvez eu não sentaria pessimista a uma mesa de fim de ano. Mas não pense o leitor que me entristeço. Ando assim, como os ébrios em guias altas pensam andar em cordas bambas…

A bela pata machucada. O coração inchado de rancor e raiva. O grito forte e grosso que me colocou em um bom sono até o dia seguinte, quando Deus virou-me a face, e nada comentou, nada respondeu, nada articulou sobre sua dor na mão direita. Deus era bom? Não sei, o nego até hoje. E da negação surge a afirmação. E toda vez que nego, afirmo. E nego. E afirmo. E nego, e afirmo: o negarei até o fim. Pois que prefiro o asfalto duro e frio a um hipócrita deus falido.