Uma pequeníssima introdução à Ontologia de Lukács - Parte 1: O Trabalho e o Ser Social – Ricardo C.

“Quem procura resumir teoricamente a ontologia marxiana encontra-se diante de uma situação um tanto paradoxal. Por um lado, nenhum leitor imparcial pode deixar de notar que todos seus enunciados concretos  […]  são ditos como enunciados sobre certo tipo de ser, ou seja, são afirmações puramente ontológicas. Por outro lado, não há nele nenhum tratamento autônomo de problemas ontológicos, ele jamais se preocupa em determinar esses problemas  no pensamento […]” -Lukács, “Para uma ontologia do Ser Social”, cap IV ,”Os princípios ontológicos fundamentais em Marx”.
 

Compreender a obra tardia de Lukács, quando este já se declarava um marxista ortodoxo, em sua totalidade, requereria muito mais do que um simples artigo como esse. Contudo, ir ao encontro de algumas das principais categorias de seu pensamento, as motivações de seu projeto ontológico e os consequentes desdobramentos dessas reflexões no interior do marxismo e sua relação com outras correntes filosóficas, pode nos abrir um caminho até a própria obra deste importante pensador e aos estudiosos que se debruçaram sobre ela.

Gyordy Lukács nasceu na Hungria, em 13 de abril de 1885. Filho de um banqueiro da cidade de Budapeste, iniciou seus estudos em filosofia  na adolescência, vindo a publicar suas primeiras reflexões com somente 17 anos. Ainda na juventude, influenciado pela sociologia de Simmel, Max Weber e pelo idealismo alemão, publicou obras que o tornariam reconhecido no mundo da Filosofia e da crítica literária. Porém, tal fase de seu pensamento – que ainda hoje é revelante tanto para o estudo de seu caminho filosófico quanto para reflexões literárias e sociológicas- representa, segundo o próprio Lukács, tão somente um momento de sua vida. A obra sobre a qual tentarei elucidar algo só viria a plano já na sua maturidade, com seu reencontro com Marx, após a Primeira Guerra Mundial e quando este se encontrava na recém fundada URSS. Em seu conhecido artigo “Meu Caminho para Marx”, ele delineia as diferentes influências sobre sua visão de mundo.



POR QUE UMA “ONTOLOGIA” ?



A palavra ontologia, que Lukács dissera ter descoberto de maneira brilhantemente trabalhada em Nicolai Hartmann, um modesto e quase nunca lembrado professor e filósofo alemão,  significa ” o estudo do ser enquanto ser”. São aquelas perguntas fundamentais, até mesmo presentes em conversas descontraídas de mesas de bar, que indagam sobre a essência das coisas, do tempo, da matéria, da nossa constituição humana.

Tais questões são quase sempre o pano de fundo de toda elaboração filosófica, pois é a partir de pressupostos básicos que os conceitos vão emergindo para dar as explicações sobre os fenômenos com os quais o conhecimentos humano se depara ( sejam eles da natureza ou da sociedade, quando é feita essa distinção). No fim das contas, toda filosofia  possui uma ontologia por trás.

Logo, a escolha da palavra “ontologia“, por Lukács, indica de antemão que sua obra tratará dos elementos essenciais e fundadores do chamado ser social e as diferenças radicais que o pensador alemão ( Marx) apontou para uma nova concepção de mundo, essencialmente liberta das influências deturpantes do chamado pensamento burguês.



O MATERIALISMO DE MARX



“A concepção materialista do mundo se limita simplesmente a conceber a natureza tal como é, sem nenhuma espécie de acréscimos estranhos”
-F. Engels

Marx e Engels, em suas trajetórias como militantes, filósofos, economistas e jornalistas ( adjetivos que na prática revolucionária concreta adquirem um significado unitário) travaram uma luta incandescente contra a chamada “concepção idealista da história e da realidade”, que tem seu representante maior no alemão Hegel.  Essa discussão tem um infindável conteúdo, cabendo aqui esboçar somente algumas premissas gerais – mesmo elas sendo partes fundamentais – para podermos entramos nas considerações ontológicas de Lukács.


Na “Ideologia Alemã”, Marx e Engels dizem sobre a concepção materialista da história ( do ser social, para Lukács) :

“As premissas com que começamos não são arbitrárias, não são dogmas, são premissas reais, e delas só na imaginação se pode abstrair. São os indivíduos reais, a sua ação e as suas condições materiais de vida, tanto as que encontraram como as que produziram pela sua própria ação. Estas premissas são , portanto, constatáveis de um modo puramente empírico. A primeira premissa de toda a história humana é, naturalmente, a existência de indivíduos humanos vivos primeiro facto a constatar é, portanto, a organização física destes indivíduos e a relação que por isso existe com o resto da natureza. Não podemos entrar aqui, naturalmente, nem na constituição física dos próprios homens, nem nas condições naturais que os homens encontraram — as condições geológicas, hidrográficas, climáticas e outras.Toda a historiografia tem de partir destas bases naturais e da sua modificação ao longo da história pela ação dos homens.”

No seu célebre panfleto “Do socialismo Utópico ao Científico“, Engels diz, na terceira parte denominada “Materialismo Histórico” :

“A concepção materialista da história parte da tese de que a produção, e com ela a troca dos produtos, é a base de toda a ordem social; de que em todas as sociedades que desfilam pela história, a distribuição dos produtos, e juntamente com ela a divisão social dos homens em classes ou camadas, é determinada pelo que a sociedade produz e como produz o pelo modo de trocar os seus produtos. De conformidade com isso, as causas profundas de todas as transformações sociais e de todas as revoluções políticas não devem ser procuradas nas cabeças dos homens nem na ideia que eles façam da verdade eterna ou da eterna justiça, mas nas transformações operadas no modo de produção e de troca; devem ser procuradas não na filosofia, mas na economia da época de que se trata. Quando nasce nos homens a consciência de que as instituições sociais vigentes são irracionais e injustas, de que a razão se converteu em insensatez e a bênção em praga , isso não é mais que um indício de que nos métodos de produção e nas formas de distribuição produziram-se silenciosamente transformações com as quais já não concorda a ordem social, talhada segundo o padrão de condições econômicas anteriores. E assim já está dito que nas novas relações de produção têm forçosamente que conter-se – mais ou menos desenvolvidos – os meios necessários para pôr termo aos males descobertos. E esses meios não devem ser tirados da cabeça de ninguém, mas a cabeça é que tem de descobri-los nos fatos materiais da produção, tal e qual a realidade os oferece.

Em contrapartida, o idealismo na concepção da história, como Engels explica no mesmo panfleto, evocando Hegel, se apresenta como:

 “[..] para ele as Ideias de sua cabeça não eram imagens mais ou menos abstratas dos objetos ou fenômenos da realidade, mas essas coisas e seu desenvolvimento se lhe afiguravam, ao contrário, como projeções realizadas da “Ideia”, que já existia, não se sabe como, antes de existir o mundo. Assim, foi tudo posto de cabeça para baixo, e a concatenação real do universal apresentava-se completamente às avessas. E por mais exatas e mesmo geniais que fossem várias das conexões concretas concebidas por Hegel, era inevitável, pelos motivos que acabamos de apontar, que muitos dos seus detalhes tivessem um caráter amaneirado, artificial, construído; em uma palavra, falso.”




O TRABALHO COMO CATEGORIA FUNDANTE DO SER SOCIAL



Em Marx, sua evolução ao materialismo o leva ao estudo da economia como base sobre a qual se assenta a reprodução da vida social humana, tornando possível uma exposição ontológica do ser social. Lukács diz que seu “giro ontológico” acontece ao se deparar com os “Manuscritos Filosófico-econômicos” de 1844, de Marx, onde pela primeira vez ele apresenta as categorias econômicas como centrais na constituição da vida social. Para isso, era preciso encontrar a categoria que permitiria o início da constituição do ser social, e é no trabalho que Marx aponta a condição de existência de todas as esferas da vida humana.

No capítulo 5 de O Capital, parte 1, “O processo de trabalho”, Marx define o trabalho como:

“[…] um processo entre o homem e a natureza, processo este em que o homem, por sua própria ação, medeia, regula e controla seu metabolismo com a natureza .Ele se confronta com a matéria natural como uma potência natural. A fim de se apropriar da matéria natural de uma forma útil para sua própria vida, ele põe em movimento as forças naturais pertencentes a sua corporeidade: seus braços, cabeça e mãos. Agindo sobre a natureza externa e modificando-a por meio desse movimento, ele modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza. […] Pressupomos o trabalho numa forma em que diz respeito unicamente ao homem. Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e uma abelha envergonha muitos arquitetos com a estrutura de sua colmeia. Porém, o que desde o início distingue o pior arquiteto da melhor abelha  é  o fato de que o primeiro tem o colmeia em sua mente antes de contruí-la com a cera. No final do processo de trabalho, chega-se a um resultado que já estava presente na representação do trabalhador no início do processo, portanto, um resultado que já existia idealmente.”

Lukács tem uma especial atenção a esse pressuposto, pois é ele que coloca o materialismo e história humana no mesmo caminho.

É preciso lembrar que apesar de o ser social se distinguir dos outros tipos de seres existentes ( ser orgânico e inorgânico) é somente sobre suas bases que ele pode existir. A nossa reprodução biológica depende tanto dos processos inorgânicos como nossa vida social depende de nossos corpos para existir. Portanto, não há uma separação radical entre esses complexos e, sim, uma inter-relação constante que, conforme o desenvolvimento da história, passa a compor categorias que são puramente sociais, como o valor, o capital.  


Lukács, na “Ontologia do ser social”, cap IV, pág 289, diz:

“Assim até existem categorias sociais puras, ou melhor, é o conjunto delas que constitui a especificidade do ser social, mas esse ser não só se desenvolve no processo concreto-material de sua gênese a partir do ser da natureza, como se reproduz também constantemente nesse quadro e jamais pode se separar por completo- precisamente do sentido ontológico- dessa base.[…] é preciso sublinhar ‘jamais por completo'[…] A tendencia principal que assim tem lugar é o constante crescimento, quantitativo e qualitativo,dos componentes pura ou predominantemente sociais, aquilo que Marx costumava a chamar de ‘recuo das barreiras naturais'”

Outra categoria importante e que está ligada com a do trabalho é a do “pôr teleológico”.

O processo de transformação da natureza pelo trabalho cria novos objetos que não aparecem por si mesmos na natureza sem a presença da consciência humana, como um arco e flecha, por exemplo. Tal objeto possui uma finalidade, um fim, que só pode ser efetivo nas mãos de um ser humano determinado historicamente ( que saiba a utilidade de tal instrumento, seja para caçar ou praticar um esporte). Essa criação de uma finalidade posta é o que caracteriza o momento do trabalho denominado pôr teleológico. Os novos objetos que são criados pelo homens, como uma mesa, por exemplo, permanecem, em sua própria constituição, sendo objetos naturais e a sofrerem o devir comum da decomposição da madeira, neste caso. Somente com o pôr teleológico eles se tornam coisas úteis e passam a fazer parte de outro complexo, o do próprio ser social.



Como elucida Lukács, na “Ontologia do Ser Social“, capítulo IV, “Os principios ontológicos fundamentais de Marx”, pág 288:



“O fato de que, desse modo, surjam  formas de objetividade totalmente novas, que não podem ter nenhuma analogia na natureza, em nada altera a situação. Mesmo quado um objeto da natureza parece permanecer imediatamente natural, sua função de valor de uso já é algo qualitativamente novo em relação à natureza; e, com o pôr socialmente objetivo do valor de uso, surge, no curso do desenvolvimento social, o valor de troca, no qual, se considerado isoladamente, desaparece toda objetividade natural: como diz Marx, o que ele possui é uma ‘objetividade fantasmagórica’ “

Segundo a Ontologia, todas as formações históricas humanas, portanto, só foram possíveis com o salto ontológico do ser social em relação ao ser biológico, e são produtos do trabalho humano, da relação recíproca de transformação do homem sobre natureza. Uma aldeia, uma cidade são conjuntos de milhões de exteriorizações, outro momento do processo de trabalho, que se relacionam de acordo com os pores teleológicos estabelecidos pelas necessidades humanas. Tratam-se de natureza humanizada.

Há também uma relação direta entre conceber o trabalho como categoria fundante do ser social e a concepção de que a vida social possui uma objetividade independente de nossa consciência. A mais simples inferência de nós sobre o mundo já comporta em si, segundo a ontologia materialista lukacsiana, nexos objetivos, que aparecem em diferentes níveis de apreensão em relação a nossa consciência.

Para conseguir criar um instrumento simples, como uma lança, os homens precisam ter consciência de, pelos menos, mínimas determinações concretas da matéria sobre a qual vão dispender suas forças: se tal madeira é resistente, as formas possíveis de moldar o instrumento, quais pedras ou metais são bons cortantes e assim progressivamente.

Essa tomada de posição quanto a centralidade do trabalho na vida do ser social tem implicações em todas as áreas do conhecimento, e sobre as quais tentaremos conhecer nas próximas partes desta pequeníssima introdução.